Ansiedade sem remédio: quando é possível e o que considerar
Algumas pessoas tratam a ansiedade sem remédio; outras precisam dele. O que as diretrizes dizem, quem decide, por que não parar o remédio sozinho e onde a hipnoterapia pode entrar.
"Quero tratar minha ansiedade sem remédio." É um pedido comum, e os motivos costumam ser legítimos: medo de efeito colateral, medo de depender, a sensação de que o remédio só "abafa" o problema. A pergunta merece uma resposta honesta, sem propaganda para nenhum dos lados.
Em poucas palavras: algumas pessoas tratam a ansiedade sem remédio, com psicoterapia e mudanças na rotina. Outras precisam dele, pelo menos por um tempo. Essa decisão se toma com um médico, olhando para o seu caso. E quem já toma remédio nunca deve parar por conta própria.
Dá para tratar ansiedade sem remédio?
Para algumas pessoas, sim. As diretrizes de saúde colocam a psicoterapia entre as primeiras opções para tratar a ansiedade. Mas há casos em que o remédio faz falta, e não existe regra que sirva para todo mundo: quem ajuda a decidir é o médico, junto com você.
O NICE, órgão que faz as diretrizes (guias oficiais de tratamento) de saúde do Reino Unido, organiza o cuidado em degraus. Nos casos mais leves de ansiedade generalizada (preocupação constante com quase tudo), o começo é informação, acompanhamento e autoajuda guiada, sem remédio. Quando a ansiedade atrapalha bastante a vida, a diretriz orienta oferecer terapia psicológica individual ou remédio, e escolher conforme a preferência da pessoa, porque não há evidência de que um dos dois seja melhor. Na síndrome do pânico, terapia, remédio e autoajuda mostraram efeito, e a escolha é feita em conjunto.[1]
A Organização Mundial da Saúde vai na mesma linha. As terapias psicológicas são tratamento essencial para os transtornos de ansiedade, e as que têm mais pesquisa seguem a TCC (terapia cognitivo-comportamental, uma terapia de conversa com exercícios práticos). A OMS também diz que antidepressivos podem ser úteis para adultos, e que a escolha deve levar em conta os efeitos colaterais e a preferência da pessoa.[2]
Quando pesquisadores colocaram terapia e antidepressivo frente a frente, em depressão e ansiedade, uma meta-análise (estudo que junta vários estudos) com 67 estudos que compararam os dois diretamente não encontrou diferença geral entre eles.[3] Ou seja: remédio não é fraqueza, e terapia não é enrolação. São caminhos diferentes, que às vezes andam juntos.
Quando o remédio costuma entrar na conversa
Só um médico pode avaliar se você precisa de remédio. Mas vale procurar um clínico geral ou um psiquiatra, sem adiar, se:
- a ansiedade atrapalha o trabalho, o sono ou a vida em casa há semanas;
- as crises são fortes e frequentes;
- junto com a ansiedade vem uma tristeza profunda, sem vontade de nada;
- você tem usado álcool, calmante sem receita ou outras substâncias para aguentar o dia;
- você já fez terapia e a ansiedade não melhorou.
O último ponto também está na diretriz do NICE: quando a ansiedade generalizada não melhora com um ciclo completo de terapia, o passo seguinte é oferecer remédio.[1] Precisar de remédio não é fracasso nem falta de força de vontade. É usar o recurso certo para o momento.
Posso parar o remédio se começar terapia ou hipnoterapia?
Não por conta própria. Qualquer mudança no remédio, inclusive parar, é decidida com o médico que receitou. Começar terapia ou hipnoterapia não é motivo para mexer na receita sozinho.
Há duas razões concretas. A primeira: parar um antidepressivo de repente pode causar sintomas de retirada (mal-estar ao interromper o remédio), como tontura, enjoo, dor de cabeça, suor, ansiedade e sono ruim. Por isso, quando chega a hora de parar, a dose é reduzida aos poucos, com acompanhamento.[1]
A segunda: uma revisão de 28 estudos com pessoas com transtorno de ansiedade que tinham melhorado com antidepressivo viu que quem passou a tomar placebo (comprimido sem efeito) no lugar do remédio teve mais recaídas (volta dos sintomas) do que quem continuou, no período estudado, de até um ano. Os autores concluem que a decisão deve pesar o risco de recaída, os efeitos colaterais e a preferência da pessoa.[4]
Se o remédio incomoda, leve isso ao médico. Efeito colateral, medo de depender, vontade de reduzir: tudo isso é conversa legítima de consultório, e ele pode ajustar, trocar ou planejar uma redução segura. Conte também que você está fazendo terapia ou hipnoterapia.
O que ajuda, com ou sem remédio
Algumas coisas somam em qualquer caminho:
- Psicoterapia, em especial a baseada na TCC, que inclui aprender a enfrentar os próprios medos.[2]
- Atividade física. Uma revisão ampla encontrou redução de sintomas de ansiedade com atividade física em adultos, com e sem diagnóstico, embora a maioria das revisões reunidas tivesse qualidade muito baixa.[5]
- Sono e alimentação em horários regulares, e menos álcool. A OMS lembra que álcool e drogas podem piorar a ansiedade.[2]
- Técnicas de relaxamento, como respiração lenta e relaxamento dos músculos.[2]
Esses hábitos não são um "tratamento natural" que dispensa ajuda profissional. Para a OMS, eles apoiam o tratamento.[2]
Onde a hipnoterapia pode entrar, e os limites
Uma meta-análise que reuniu 15 estudos encontrou redução maior de ansiedade em quem recebeu hipnose do que nos grupos de comparação. O efeito foi maior quando a hipnose foi combinada com outras terapias psicológicas do que quando foi usada sozinha.[6] Esses estudos tratam da hipnose em geral, não do Método EIXO, e não querem dizer que ela funcione para todo mundo.
Há quem já tenha entendido de onde vem a própria ansiedade e, mesmo assim, continue reagindo igual. Entender é importante, mas nem sempre basta.
O insight não desativa o alarme.
— Rodrigo M Sobroza, na página do Método EIXO
Os limites, sem rodeio:
- a hipnoterapia é complementar e não substitui médico, psiquiatra ou psicólogo;
- hipnoterapeuta não faz diagnóstico, não receita e não tira remédio;
- ninguém sério promete prazo nem número de sessões;
- a resposta varia de pessoa para pessoa.
Rodrigo M Sobroza é hipnoterapeuta, não é médico nem psicólogo. Na primeira conversa, conte quais remédios você usa e quem acompanha você: a hipnoterapia não pede que você mude nada no seu tratamento. Em situações de risco, como crise aguda ou pensamentos de tirar a própria vida, ele encaminha a pessoa ao médico. Mais em Posso fazer hipnoterapia tomando remédio? e Hipnoterapia substitui psicólogo ou psiquiatra?
Quando procurar ajuda agora
Se você está pensando em tirar a própria vida, ligue para o CVV, no 188 (ligação gratuita, 24 horas), ou para o SAMU, no 192, ou vá à emergência mais próxima. Dor no peito, falta de ar forte ou desmaio também são caso de emergência. Na dúvida entre crise de ansiedade e problema no coração, não espere: vá à emergência. Para entender a diferença com calma, depois, leia Estou tendo um infarto ou é pânico?
Fontes
- NICE (Reino Unido). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113), recomendações das partes 1.2 (ansiedade generalizada) e 1.3 (pânico). nice.org.uk/guidance/cg113
- Organização Mundial da Saúde. Anxiety disorders (ficha informativa). who.int
- Cuijpers P, Sijbrandij M, Koole SL, Andersson G, Beekman AT, Reynolds CF. The efficacy of psychotherapy and pharmacotherapy in treating depressive and anxiety disorders: a meta-analysis of direct comparisons. World Psychiatry, 2013. doi:10.1002/wps.20038
- Batelaan NM, Bosman RC, Muntingh A, Scholten WD, Huijbregts KM, van Balkom AJLM. Risk of relapse after antidepressant discontinuation in anxiety disorders, obsessive-compulsive disorder, and post-traumatic stress disorder: systematic review and meta-analysis of relapse prevention trials. BMJ, 2017. doi:10.1136/bmj.j3927
- Singh B, Olds T, Curtis R, et al. Effectiveness of physical activity interventions for improving depression, anxiety and distress: an overview of systematic reviews. British Journal of Sports Medicine, 2023. doi:10.1136/bjsports-2022-106195
- Valentine KE, Milling LS, Clark LJ, Moriarty CL. The efficacy of hypnosis as a treatment for anxiety: a meta-analysis. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 2019. doi:10.1080/00207144.2019.1613863
Para entender a ansiedade por inteiro (o que é, como aparece no corpo, o que a mantém e quem procurar), leia o guia Ansiedade. As dúvidas sobre hipnose estão em Hipnose: as perguntas reais. E se a sua pergunta é se a ansiedade um dia passa, veja Ansiedade tem cura?
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Atendo com hipnoterapia no Centro de Nova Iguaçu (RJ) e online. Pelo WhatsApp você tira dúvidas, sem compromisso. Na Análise de caso, a consulta inicial (R$ 350, presencial ou online), você conta o seu caso e eu explico se a hipnoterapia faz sentido para você.